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Nem tão pequeno Príncipe

In sen categoria on 20.05.2011 at 12:56 PM

Já é sabido que o Pequeno Príncipe cativou a Raposa e ela chorou quando ele partiu. Mas a má língua da Serpente me contou que o que tem lá no livro, na verdade, foi um “pano” que o Exupéry fez pro Príncipe, porque eram muito amigos. A versão da Raposa é um pouco diferente:

– Ah! Eu vou chorar.
– A culpa é tua – disse o Principezinho – Aliás, esse negócio de ser responsável por aquilo que cativas é o xaveco mais fraco que eu já ouvi.
– Que? Como assim?
– Isso mesmo. Pura projeção da tua carência pra cima de mim.
– Opa, pera lá! Não fui eu quem deitou na relva pra chorar. Por que essa grosseria agora?
– Você foi oportunista aquele dia. No fundo eu sei que você queria ser cativada, mas não quis nem saber se eu queria cativar alguém ou ser cativado Tava na minha e tu veio com esse papo. Cativou por si só e me transferiu a responsabilidade. Quis ser bajulada e nada mais.
– Quando passei, você disse que estava triste. Me chamou pra brincar e disse que eu era bonita… Agora a culpa é minha por ter acreditado em você?
– Tava sem nada pra fazer, quis ser gentil. Olha, eu curti muito te conhecer, de verdade. Até estava entrando nessa de ser cativado e tal, mas esse papo, essa cobrança toda de ser responsável por te cativar deu no saco. Eu não queria nada disso. E você não é única. Eu sou um Príncipe…
– Estou vendo, um Lord…
– … um viajante, deixei a Rosa me esperando em casa e você sempre soube disso, desde o começo. E agora vejo que o melhor a fazer é voltar pra lá. Essa sua vida de responsabilidades e rituais não é pra mim.
– Porque voce é um mané! Chega aqui, se achando o Principezinho, com esse papo doce de que tem uma Rosa, mas ela não cuida bem de você, e a gente acaba caindo feito besta… Pois quer saber? Que vá, que morra sozinho. E fique sabendo também que o essencial…
– Ah não, outra conversa fiada… O essencial é o quê?
– … O essencial é que a tal da Rosa também deve te achar um escroto, mas te suporta por pena, ou porque deve ser uma perdida feito você. Isso não é invisível aos olhos de ninguém.
– Eu bem que te avisei no começo que não tinha muito tempo. Quis te proteger mas você insistiu. Mas não dá mais. Tenho muita coisa a descobrir, muita gente a conhecer… e acho que você deveria fazer o mesmo.

A Raposa virou as costas e saiu pisando duro, chorando, arrasada com o que tinha acabado de ouvir. Sabia que não devia confiar nos homens, quanto menos os que se dizem príncipes. Ligou pra sua amiga, a Serpente, e à noite saíram pra beber. A Serpente bem que tinha avisado à amiga que o cara era problemático, e aqueles papos de morar um planeta distante, da Rosa, de querer se matar… Achava que ele só queria chamar a atenção e a Raposa, que gostava desses tipos misteriosos, acabou caindo na conversa. “Mas bola pra frente, amiga!” A Raposa agora só queria saber de olhar para os campos de trigo e pensar em bons goles de cerveja.

O Príncipe chegou quebrado em seu planeta, por causa da viagem. Só queria um bom banho vulcânico e um abraço da sua Rosinha antes de sair de novo. Mas foi recepcionado por um bilhetinho:

“Saí com uns amigos, não volto hoje.
Deixei as chaves com o Baobá.”

Era da Rosa.
Entrou em casa, aquele silêncio de sempre. Abriu a geladeira e mais uma vez não tinha janta, só o que tinha era uma garrafa de vinho aberta, meio choco, já. Tirou a rolha e deu um gole largo. Aquele cheiro e aquele gosto de uva velha trouxeram na hora a lembrança da Raposa, de como corriam e riam na relva dos caçadores, dos passeios vespertinos até a vina. Quis saber o que ela estaria fazendo a uma hora daquelas. Se perdeu em pensamentos que até esqueceu do banho e da ausência da sua Rosa. “Porra, cadê a Rosa? Voltei só por causa dela.”
Virou metade da garrafa. Mais uma vez, ele nunca se sentia tão só. Lembrou que, na pressa de ir embora, nem trouxe o carneirinho que ganhara do seu amigo aviador, “Puts!”.

E então, deitado no sofá, ele chorou.

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  1. Hôloco! Enquanto lia, pensei naquele teste psicológico no qual é apresentada uma imagem à pessoa e esta “conta” a história que lhe ocorrer… Ainda bem que Exupéry transborda lirismo em suas páginas, senão seria o livro da amargura.

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